1900 Krohn Reserva
CASTAS
Touriga Nacional, Tinta Barroca, Touriga Franca, Tinta Roriz
VINIFICAÇÃO
O Krohn Reserva Particular 1900 é uma das mais extraordinárias expressões históricas da antiga casa Wiese & Krohn, fundada em 1865 pelos noruegueses Theodor Wiese e Dankert Krohn.
Desde os primeiros anos de actividade, a empresa construiu uma reputação muito particular pelos seus Vinhos do Porto envelhecidos durante longos períodos em casco, sobretudo pelos seus Colheitas e pelas suas reservas antigas.
A própria Krohn mantém actualmente reservas de vinhos do século XIX, constituindo uma das colecções mais interessantes de vinho fortificado português.
A colheita de 1900 teve características bastante particulares.
Os registos históricos classificam-na como uma vindima muito boa, de grande volume, mas produzindo vinhos relativamente delicados, com menor concentração de cor e corpo do que algumas das grandes colheitas mais poderosas do Douro.
Foi igualmente uma vindima tardia. Esta característica é especialmente interessante quando analisamos um vinho com mais de 120 anos.
Um vinho originalmente mais delicado pode revelar-se particularmente elegante depois de décadas de envelhecimento oxidativo, porque o tempo transforma a fruta primária e a estrutura inicial numa complexidade muito mais subtil, onde a concentração é acompanhada por notas de frutos secos, caramelo, especiarias e madeira antiga.
As uvas utilizadas pertencem às castas tradicionais do Douro, plantadas historicamente em vinhas onde era frequente a mistura de variedades.
A Touriga Nacional e a Touriga Franca contribuem para a estrutura e intensidade aromática, enquanto Tinta Roriz, Tinto Cão e Tinta Barroca acrescentam diferentes dimensões de fruta, cor, acidez e textura.
As fontes de referência para esta garrafa identificam precisamente este conjunto varietal.
Na elaboração de um Porto desta natureza, a fermentação é interrompida pela adição de aguardente vínica, preservando parte dos açúcares naturais da uva e elevando o teor alcoólico.
A fortificação cria as condições necessárias para uma longevidade extraordinária, mas é o posterior envelhecimento em madeira que define grande parte da personalidade do Reserva Particular.
O vinho de 1900 foi concebido numa época em que a produção de Porto dependia muito mais de processos tradicionais, de lagares e de longos períodos de estágio em madeira do que da tecnologia enológica contemporânea.
A própria Krohn mantém ainda hoje uma filosofia que combina métodos tradicionais com tecnologia moderna, incluindo lagares de granito para pisa a pé.
Depois da fermentação e fortificação, o vinho foi destinado a uma longa permanência em madeira.
Ao contrário de um Vintage, em que o vinho é engarrafado relativamente cedo para desenvolver a sua complexidade principalmente em garrafa, um Porto deste estilo passa uma parte fundamental da sua vida em casco, exposto lentamente ao oxigénio.
É precisamente esta diferença que explica o carácter do Krohn Reserva Particular 1900. A sua identidade é essencialmente construída através de mais de um século de evolução oxidativa, concentração e transformação aromática.
ENVELHECIMENTO
O estágio é o verdadeiro coração deste vinho. A Krohn explica que os seus Colheitas permanecem normalmente em madeira durante períodos muito superiores ao mínimo legal de sete anos.
Com o passar do tempo, desenvolvem a característica cor mogno dos grandes Tawnies antigos, um bouquet complexo, notas de nozes e avelãs e uma textura sedosa.
No caso excepcional do 1900 Reserva Particular, a escala temporal é completamente diferente. Estamos perante um vinho que pertence a uma reserva histórica e que passou décadas em casco antes de ser engarrafado.
Existem exemplares documentados com engarrafamento em 1973, ou seja, depois de aproximadamente 73 anos de evolução em madeira, e outros exemplares conhecidos engarrafados em 1996, após cerca de 96 anos desde a vindima.
Esta diferença de engarrafamento é extremamente importante para um coleccionador
Duas garrafas com o mesmo ano de colheita podem não apresentar exactamente o mesmo perfil se tiverem sido engarrafadas em momentos diferentes.
Quanto mais prolongada tiver sido a permanência em casco, maior tende a ser a expressão oxidativa, a concentração e a complexidade adquirida antes do engarrafamento.
Durante o estágio em madeira, a evaporação progressiva concentra os componentes não voláteis do vinho. Ao mesmo tempo, a micro-oxigenação provoca uma transformação lenta dos compostos aromáticos e fenólicos.
A fruta fresca desaparece gradualmente e é substituída por aromas de frutos secos, caramelo, melaço, chocolate, café, casca de citrinos e especiarias.
A própria Krohn salienta que os seus Colheitas adquirem com o tempo uma textura sedosa e um bouquet fino e complexo, com carácter de noz e avelã.
Depois de engarrafado, o vinho já não depende do mesmo processo de evolução oxidativa. Isto é particularmente importante: a idade da garrafa não deve ser confundida com o tempo de envelhecimento do vinho em casco.
Assim, uma garrafa Krohn Reserva Particular 1900 engarrafada em 1996 é, do ponto de vista estilístico, fundamentalmente um vinho que passou cerca de 96 anos a desenvolver-se em madeira, enquanto os anos seguintes em garrafa tiveram uma influência muito menor na sua transformação.
É também por isso que estes vinhos podem ser apreciados durante longos períodos depois de abertos.
A própria Krohn afirma que os seus Colheitas não precisam de ser consumidos no próprio dia da abertura; devidamente fechados, podem conservar-se durante bastante tempo.
No caso de uma garrafa com mais de um século, naturalmente, a condição individual da garrafa, nível, estado da rolha, conservação, oxidação e data de engarrafamento, pode ter uma influência enorme na experiência final.
NOTAS DE PROVA
Visualmente, o Krohn Reserva 1900 apresenta uma tonalidade tawny profundamente evoluída, caminhando para mogno e castanho-avermelhado, com uma auréola mais clara e ligeiros reflexos verde-azeitona.
Esta tonalidade é característica dos Portos que passaram longos períodos em madeira e é especialmente coerente com a extraordinária idade do vinho.
O nariz é imediatamente complexo, embora não seja dominado por fruta fresca.
O primeiro contacto revela açúcar queimado, chocolate de leite, avelã e fruta seca, combinação identificada numa série de provas do Krohn Reserva 1900.
A componente de açúcar queimado é particularmente interessante, evocando caramelo escuro, toffee e melaço.
Não se trata de uma doçura simples, mas de um aroma profundamente transformado pelo tempo e pela oxidação.
Surgem depois notas de noz, avelã torrada, amêndoa, figo seco, tâmara e passas, criando uma extraordinária sensação de concentração e maturidade.
A dimensão de frutos secos torna-se progressivamente mais evidente com a oxigenação. A noz e a avelã dão lugar a sugestões de praliné, frutos secos caramelizados e casca de citrinos cristalizada.
O chocolate surge inicialmente numa expressão mais cremosa, quase de chocolate de leite, mas pode evoluir para cacau e chocolate negro à medida que o vinho respira.
Esta combinação entre chocolate, frutos secos e açúcar queimado é uma das assinaturas aromáticas mais interessantes desta garrafa.
No fundo aparecem ainda notas de madeira antiga, tabaco, chá preto, especiarias doces, caramelo queimado e ligeiros elementos balsâmicos.
Na boca, o vinho não parece excessivamente pesado.
A descrição histórica da colheita como relativamente delicada ajuda a compreender este aspecto: mesmo depois de décadas de concentração, o 1900 parece privilegiar a elegância em detrimento da potência.
Apresenta um corpo médio, com uma textura sedosa e uma acidez que constitui provavelmente o elemento mais importante do equilíbrio.
As provas históricas do vinho destacam precisamente a combinação entre corpo médio, açúcar queimado e uma acidez muito agradável e persistente.
A entrada é dominada por caramelo, açúcar queimado e frutos secos. Progressivamente surgem chocolate, noz, avelã, figo seco e delicadas notas de especiarias.
O meio de boca apresenta uma textura extraordinariamente polida. Não existe qualquer sensação de tanino agressivo; tudo foi suavizado e integrado pelo longo estágio oxidativo.
A acidez mantém o vinho vivo e impede que a concentração de açúcar e extracto resulte num perfil pesado. É precisamente esta frescura que faz com que o vinho continue interessante mesmo depois de mais de um século.
O final é longo, elegante e surpreendentemente persistente, deixando na boca notas de caramelo escuro, chocolate, frutos secos, noz e uma componente ligeiramente citrina que renova a prova.
Uma série de provas realizadas ao longo dos anos classificou o vinho entre 15,5 e 16,75/20, descrevendo-o como complexo, elegante e harmonioso, com uma acidez particularmente bonita e um final atractivo.
É importante, contudo, não comparar este perfil directamente com um grande Vintage de 1900. O Krohn Reserva Particular 1900 é um vinho de evolução oxidativa, e a sua grandeza reside precisamente na elegância, complexidade e transformação aromática proporcionadas pelo longo estágio em madeira.
SUGESTÕES
Deve ser servido a uma temperatura de 10ºC – 14ºC. O Krohn Reserva Particular 1900 é um vinho extraordinariamente gastronómico, mas deve ser acompanhado por alimentos suficientemente delicados para não esconder a sua enorme complexidade.
Os frutos secos constituem uma das harmonizações mais naturais. Nozes, avelãs torradas, amêndoas e pecãs prolongam directamente os aromas presentes no vinho.
É igualmente magnífico com sobremesas à base de caramelo, frutos secos e chocolate, sobretudo preparações que não sejam excessivamente doces.
Uma tarte de noz, um parfait de avelã, um praliné pouco doce ou uma sobremesa de chocolate negro podem funcionar de forma soberba.
A laranja cristalizada, marmelada e sobremesas cítricas caramelizadas criam uma ponte particularmente interessante entre a acidez do vinho e os seus aromas terciários.
Nos queijos, é uma excelente escolha para queijos curados de ovelha, Comté muito envelhecido, Gouda velho e, sobretudo, queijos azuis.
A combinação entre o sal do queijo e a doçura oxidativa do Porto cria um contraste clássico e extremamente eficaz.
A própria informação disponível para esta referência aponta para sobremesas, queijos curados e queijos azuis como harmonizações adequadas.
Também pode acompanhar foie gras, sobretudo quando servido com compota de frutos secos ou citrinos. A acidez do Porto ajuda a equilibrar a gordura do prato.
Uma garrafa desta raridade, a preferência seria servir primeiro um pequeno copo sem qualquer comida, permitindo apreciar a evolução do vinho. Não fazer uma decantação prolongada.
Se existir depósito, poderá ser feita uma decantação muito cuidadosa, mas um Porto deste género não necessita de uma oxigenação agressiva.
É também aconselhável abrir a garrafa com especial cuidado. Em exemplares tão antigos, a rolha pode estar fragilizada pelo tempo, pelo que um saca-rolhas de lâminas ou outro sistema adequado para rolhas antigas pode ser preferível.
Uma vez aberto, o vinho pode ser apreciado lentamente. O carácter oxidativo adquirido durante décadas em casco proporciona-lhe uma estabilidade muito superior à de um Vintage Port envelhecido em garrafa.
A própria Krohn indica que os seus vinhos podem ser conservados depois de abertos durante bastante tempo, desde que devidamente fechados.
ENOLOGIA
Carlos Alves
TEOR ALCOÓLICO
20.0%





