D’Oliveiras Reserva Verdelho Madeira 1900
CASTAS
Verdelho
VINIFICAÇÃO
O D’Oliveiras Verdelho Reserva 1900 é um dos mais extraordinários exemplos da capacidade de envelhecimento do Vinho da Madeira.
Trata-se de uma verdadeira cápsula do tempo enológica: um vinho proveniente de uma vindima realizada em 1900, conservado e desenvolvido ao longo de mais de um século até chegar aos nossos dias com uma vitalidade que desafia completamente a idade cronológica.
A Pereira d’Oliveira, produtora deste vinho, é uma das casas históricas da Madeira e foi fundada em 1850 por João Pereira d’Oliveira.
A empresa mantém ainda hoje uma das mais importantes colecções de Madeiras antigos, resultado da preservação de stocks históricos de várias gerações.
A Verdelho é uma das grandes castas tradicionais da Madeira e ocupa uma posição intermédia no espectro de doçura dos estilos clássicos da ilha.
Produz normalmente vinhos de carácter mais seco e firme do que a Malvasia, mas suficientemente ricos para desenvolver enorme complexidade com a idade.
A sua grande arma é a combinação entre estrutura, intensidade aromática e uma acidez natural extraordinariamente persistente.
No contexto da Madeira, a vindima de 1900 foi considerada uma colheita de elevada qualidade.
Os registos históricos da época caracterizam-na como uma vindima de vinhos delicados e harmoniosos, embora geralmente com menos cor e corpo do que algumas das colheitas mais célebres.
A vindima foi relativamente tardia, ocorrendo entre o final de Setembro e o início de Outubro, depois de alguns episódios de chuva seguidos de condições meteorológicas favoráveis.
É importante, contudo, não interpretar esta descrição histórica à luz dos padrões de um vinho tranquilo. Num Madeira, a matéria-prima inicial é apenas o princípio de um processo de transformação extraordinariamente longo.
A fortificação e o envelhecimento oxidativo alteram profundamente a composição aromática e gustativa do vinho, permitindo que uma colheita que originalmente poderia parecer relativamente delicada venha a desenvolver uma concentração e uma complexidade extraordinárias depois de muitas décadas.
Depois da fermentação, o vinho é fortificado com aguardente vínica, interrompendo o processo fermentativo e preservando o equilíbrio entre álcool, açúcar residual e acidez.
A fortificação é fundamental para a capacidade de conservação do Madeira, mas é a combinação entre esta componente alcoólica e a extraordinária acidez natural da Verdelho que permite que o vinho permaneça vivo durante períodos de tempo tão extraordinários.
O processo de envelhecimento subsequente é igualmente determinante.
Ao longo das décadas, a exposição gradual ao oxigénio promove uma transformação profunda dos compostos aromáticos, fazendo desaparecer progressivamente os aromas primários de fruta fresca e dando lugar a notas de frutos secos, citrinos cristalizados, caramelo, café, especiarias, madeira antiga e elementos balsâmicos.
Ao mesmo tempo, ocorre concentração natural através da evaporação de água e álcool.
É este fenómeno, associado à longa permanência em madeira, que contribui para a extraordinária densidade que encontramos nos Madeiras muito antigos.
No caso específico do Verdelho 1900, esta concentração não resulta numa sensação pesada.
Pelo contrário, as provas disponíveis revelam uma acidez muito elevada e vibrante, responsável por manter o vinho extraordinariamente fresco e energético.
Uma prova recente descreveu-o como um vinho de enorme intensidade, com acidez “alta e vibrante”, textura excelente e equilíbrio excepcional.
É precisamente esta capacidade de combinar concentração com frescura que coloca este Verdelho entre os grandes Madeiras históricos.
ENVELHECIMENTO
O estágio é provavelmente o aspecto mais fascinante de um vinho como o D’Oliveiras Verdelho Reserva 1900.
Ao contrário de um grande vinho tinto de guarda, cuja evolução acontece sobretudo depois do engarrafamento, um Madeira desta categoria desenvolve grande parte da sua personalidade através de uma longa permanência em madeira.
O contacto gradual com o oxigénio é não só tolerado como essencial para a sua identidade. Durante décadas, o vinho sofre uma oxidação lenta e controlada.
Este processo provoca uma transformação progressiva dos aromas e sabores, conduzindo àquilo que podemos chamar o perfil clássico de um Madeira muito velho: frutos secos, casca de laranja, marmelada, caramelo, melaço, café, chocolate, especiarias e madeira antiga.
A utilização de recipientes de madeira durante períodos extremamente longos permite simultaneamente uma micro-oxigenação contínua e uma concentração progressiva do vinho.
A evaporação natural — tradicionalmente associada à chamada “parte dos anjos” — faz com que os componentes restantes se tornem progressivamente mais concentrados.
A Verdelho é particularmente interessante neste contexto porque mantém uma acidez extremamente firme mesmo depois de mais de um século.
É essa acidez que funciona como uma espécie de coluna vertebral do vinho, impedindo que a concentração de açúcar, álcool e extracto o torne pesado. As características do 1900 confirmam isso de forma muito clara.
Uma avaliação profissional recente encontrou uma cor âmbar profunda, quase castanha, uma intensidade enorme, uma textura extraordinária e uma acidez muito elevada e vibrante, com um final extremamente longo.
O envelhecimento prolongado também explica a extraordinária complexidade aromática.
O vinho já não apresenta simplesmente aromas de fruta: apresenta uma sucessão de camadas que incluem figos secos, citrinos cristalizados, caramelo, chocolate, melaço, frutos secos e tabaco.
A Wine Spectator descreveu a colheita com referências a chocolate, melaço, caramelo, frutos secos e uma componente espirituosa, sempre equilibrada pela acidez.
Uma característica muito interessante dos Madeiras históricos é que a idade em si não determina necessariamente o momento de consumo.
Este Verdelho encontra-se perfeitamente preparado para ser bebido actualmente e pode continuar a ser apreciado durante muitos anos.
O Tastingbook atribui-lhe 95 pontos e considera-o numa janela de consumo que se prolonga até pelo menos 2040. Mais importante ainda, a natureza do Madeira permite uma estabilidade extraordinária depois de aberta a garrafa.
O vinho não deve ser tratado como um tinto muito velho que precisa de ser consumido imediatamente após a abertura. Pelo contrário, a sua estrutura oxidativa permite uma evolução extremamente lenta mesmo depois de servido.
NOTAS DE PROVA
Visualmente, o D’Oliveiras Reserva Verdelho 1900 apresenta uma tonalidade âmbar muito profunda, já próxima do castanho, com reflexos alaranjados e acobreados.
É uma cor absolutamente coerente com a idade e com o longo processo de oxidação a que o vinho foi sujeito. Apesar da tonalidade muito evoluída, transmite uma sensação de concentração e vitalidade.
No nariz, a primeira impressão é de enorme profundidade. Surgem imediatamente figo seco, citrinos maduros e cristalizados, marmelada de laranja, frutos secos e delicadas notas de madeira antiga.
A complexidade aumenta progressivamente com a exposição ao ar.
Aparecem notas de noz, amêndoa torrada, avelã, caramelo, melaço e açúcar queimado, acompanhadas por uma dimensão especiada que recorda canela, noz-moscada e especiarias doces.
A componente cítrica é particularmente importante.
Apesar da idade extraordinária, existe uma sensação de laranja e casca de citrinos que traz frescura ao conjunto e impede que o vinho se torne exclusivamente dominado pelos aromas oxidativos.
Aparecem também notas de café torrado, chocolate negro e tabaco, sobretudo quando o vinho permanece algum tempo no copo.
A Wine Spectator identificou precisamente uma componente de chocolate e ligeiramente queimada, acompanhada por melaço, caramelo, chocolate e frutos secos.
Com mais oxigenação, o perfil torna-se ainda mais complexo, revelando sugestões de cera de abelha, madeira encerada, chá preto, folha seca, especiarias antigas e ligeiros apontamentos balsâmicos.
Na boca, a primeira característica que impressiona não é propriamente a doçura, mas a acidez. O vinho apresenta uma energia extraordinária, com uma acidez incisiva que atravessa todo o palato.
A textura é simultaneamente densa, cremosa e extremamente precisa. Existe concentração suficiente para preencher completamente a boca, mas a acidez funciona como uma lâmina que mantém o conjunto vivo.
Os sabores de figo seco, marmelada, caramelo e frutos secos surgem inicialmente, seguidos por notas de chocolate, melaço, café e especiarias.
A componente cítrica permanece sempre presente, oferecendo uma sensação quase refrescante no meio de toda a concentração. É particularmente interessante observar a forma como o vinho alterna entre sensações doces e secas.
Apesar de possuir uma riqueza natural considerável, a acidez faz com que o conjunto pareça muito mais seco e elegante do que a concentração aromática poderia inicialmente sugerir.
O meio de boca revela uma enorme profundidade. O vinho não é simplesmente doce e oxidativo; possui uma estrutura perfeitamente definida, com uma dimensão salina e uma frescura que prolongam os sabores.
O final é extraordinariamente persistente. A fruta seca, a casca de citrinos, o caramelo e os frutos secos permanecem durante largos minutos, enquanto a acidez continua a estimular o palato.
Uma das notas de prova mais recentes atribui-lhe 98 pontos, descrevendo-o como profundamente complexo, com figos e citrinos, acidez muito elevada e vibrante, excelente textura e estrutura, enorme intensidade, equilíbrio soberbo e um final muito longo.
Outra referência profissional atribui 95 pontos pela Wine Advocate e 92 pela Wine Spectator, destacando a combinação entre marmelada, tabaco, chocolate, melaço, caramelo, frutos secos e uma acidez suficientemente agressiva para manter todo o conjunto harmonioso.
O mais extraordinário é que estas características não fazem o vinho parecer velho no sentido negativo da palavra. É antigo, profundamente evoluído e extremamente complexo, mas permanece vivo.
SUGESTÕES
O D’Oliveiras Verdelho Reserva 1900 é suficientemente complexo para ser servido como vinho de contemplação, sem qualquer acompanhamento gastronómico.
Na realidade, esta poderá ser a melhor forma de o compreender, permitindo que evolua lentamente no copo enquanto se descobrem novas camadas aromáticas.
À mesa, apresenta uma afinidade extraordinária com queijos de pasta mole e intensidade média a elevada, sobretudo Camembert, Brie muito maduro e queijos de ovelha curados.
O próprio Tastingbook sugere Stilton, Camembert e Brie maduro como acompanhamentos particularmente adequados.
Os queijos azuis também podem funcionar muito bem, especialmente Stilton, porque a intensidade salgada e cremosa do queijo cria um contraste muito interessante com a riqueza e a acidez do Madeira.
Os frutos secos são uma escolha particularmente natural: nozes, amêndoas torradas, avelãs e pecãs fazem uma ligação directa com os aromas terciários do vinho.
Também é excelente com sobremesas pouco doces de frutos secos, caramelo ou citrinos. Uma tarte fina de amêndoa, uma sobremesa de noz ou uma preparação de laranja cristalizada podem funcionar particularmente bem.
Com chocolate, recomendaria chocolate negro, evitando sobremesas demasiado doces.
O chocolate com elevada percentagem de cacau cria uma ponte muito interessante com as notas de café, cacau, melaço e madeira antiga do vinho.
É igualmente possível harmonizá-lo com foie gras, sobretudo numa preparação em que exista algum elemento ácido ou cítrico.
A acidez do Verdelho é suficientemente poderosa para cortar a gordura e simultaneamente suficientemente complexa para acompanhar a intensidade do prato.
Para serviço, a referência disponível recomenda aproximadamente 13–14 ºC, temperatura que considero muito adequada para preservar a frescura sem esconder a complexidade aromática.
Não faria uma decantação agressiva. Se existir depósito, poderá ser feita uma decantação cuidadosa, mas o objectivo deverá ser simplesmente separar o sedimento.
O próprio Tastingbook indica cerca de duas horas de decantação, embora, para uma garrafa tão antiga, eu prefira uma abordagem progressiva: abrir, provar e deixar o vinho revelar-se no copo.
Uma das grandes vantagens desta categoria de Madeira é a sua extraordinária estabilidade depois de aberto.
É perfeitamente possível apreciá-lo lentamente, permitindo que a garrafa se transforme ao longo de vários dias sem a mesma urgência que existiria com um grande vinho tinto de mais de cem anos.
ENOLOGIA
N/A
TEOR ALCOÓLICO
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