Cossart Gordon Bual Solera Madeira 1845
CASTAS
Bual
VINIFICAÇÃO
Tal como era tradição na época, a vindima deste Cossart Gordon Bual Solera Madeira 1845 era totalmente manual, feita por equipas que seleccionavam cacho a cacho, privilegiando apenas fruta sã e madura.
Após prensagem suave, a fermentação decorria em grandes dornas, naturalmente, com leveduras indígenas.
A fortificação ocorria no momento exacto em que os mestres de adega julgavam ter alcançado o ponto de equilíbrio: açúcar residual suficiente para expressar a doçura típica do Bual, mas com tensão e acidez intactas.
A aguardente utilizada era neutra, de alta pureza, adquirida sobretudo no continente português ou importada de França, prática comum naquela era.
Este momento, o corte da fermentação, definia o esqueleto aromático e o perfil técnico do vinho, permitindo que o açúcar se preservasse e que a fruta evoluísse ao longo de um processo de décadas.
ENVELHECIMENTO
O que torna este vinho verdadeiramente extraordinário é o facto de ser parte de uma solera iniciada em 1845, um dos sistemas mais antigos ainda existentes na Madeira.
Numa solera, pipas-mãe contêm a base original (neste caso, 1845), da qual pequenas quantidades são retiradas ocasionalmente para engarrafamento, sendo depois repostas com vinhos de colheitas subsequentes da mesma casta e estilo
Isto cria um resultado impossivelmente complexo: O núcleo contém vinho com mais de 175 anos. As camadas superiores, adicionadas ao longo de gerações, acrescentam frescura, acidez viva e continuidade estilística.
A mistura final é uma sinfonia temporal: vinhos do século XIX, XX e XXI entrelaçados numa tapeçaria única.
O estágio ocorre em pipas antigas de carvalho, muito avinhadas, que não marcam o vinho com madeira nova mas facilitam oxidação controlada e evaporação lenta.
As pipas permaneciam nos andares superiores das adegas da Cossart Gordon, onde a temperatura mais elevada induzia transformações químicas lentas, caramelização natural de açúcares, formação de aldeídos nobres, concentração aromática e evolução para tonalidades cada vez mais profundas.
Ao longo de mais de um século e meio, a “parte dos anjos” extraiu volume e intensificou aromas, resultando numa complexidade que não pode ser replicada artificialmente.
NOTAS DE PROVA
A cor é um mogno profundo, quase negra no centro, com reflexos de mogno-avermelhado e cobre antigo, parecendo um verniz vivo. A viscosidade é marcante, com lágrimas densas e preguiçosas que se arrastam no copo.
No nariz, o vinho é monumental. Abre com uma fusão de nozes caramelizadas, figo seco, ameixa passa e tâmaras, seguida por uma aura cítrica confitada, casca de laranja amarga, bergamota cristalizada e limão seco, que dá brilho ao conjunto.
Depois surgem camadas de especiarias: canela velha, noz-moscada apagada, pimenta de Sichuan muito subtil e um toque quase medicinal de bálsamo e resina de sândalo.
Com maior abertura, o nariz evolui para notas mais profundas e austentes: tabaco de caixa de madeira antiga, chá preto muito concentrado, cacau cru, melaço, e um leve tom de melaço queimado que se mistura com sugestões de verniz fino, livro antigo, couro envelhecido e fumo de incenso.
Ao fundo, uma salinidade atlântica suavíssima, assinatura de muitos Madeiras seculares. Na boca, o Bual Solera 1845 é de uma profundidade quase indescritível.
A entrada é ampla e simultaneamente tensa: a acidez, ainda vibrante apesar de todo o tempo, eleva a doçura a um patamar de equilíbrio perfeito.
A textura é cremosa e glicérica, mas firme, nunca fatigante. Surgem sabores de marmelada escura, figo em calda, uva passa turca, mel de castanheiro e toffee, seguidos por uma linha nítida de caramelo ligeiramente queimado e citrinos secos.
O meio de boca é complexo, com notas salinas, mineralidade vulcânica e ecos de chá fumado, café frio e cacau.
A profundidade especiada prolonga-se, revelando cardamomo, madeira antiga, ervas secas e um ténue tom de alcaçuz. O final é épico, literal e tecnicamente quase infinito.
Minutos após engolir, permanecem ecos de casca de citrinos, mel, nozes tostadas e uma frescura balsâmica que desafia qualquer noção de idade.
Trata-se mais de uma experiência sensorial do que de uma prova: camadas que se revelam continuamente, exigindo silêncio e contemplação.
SUGESTÕES
Deve ser servido a uma temperatura de 16º C – 18º C.
Apesar da complexidade monumental, o Bual Solera 1845 brilha com tarte de amêndoa ou noz, bem caramelizada, queijos curados e quebradiços, como São Jorge velho, Comté 36 meses ou Stilton Foie gras com fumo leve, chocolate negro de alta percentagem, desde que não demasiado amargo, charutos delicados e aromáticos, estilo clássico cubano de média intensidade, tostas com patés de caça, sobretudo faisão ou perdiz.
O ideal é optar por sabores limpos e profundos, evitando sobremesas excessivamente doces que abafariam a elegância histórica do vinho.
ENOLOGIA
N/A
TEOR ALCOÓLICO
19.0%




