1881 Martinho Porto
CASTAS
Composição varietal exacta não documentada
VINIFICAÇÃO
O Martinho 1881 é um Vinho do Porto histórico produzido por A. G. Martinho, no Douro, Régua.
As referências históricas actualmente disponíveis identificam-no como um vinho velho do Porto, de perfil tinto aloirado e muito doce, produzido e engarrafado por A. G. Martinho.
Algumas fontes comerciais modernas classificam-no como Porto Tawny Reserva, enquanto catálogos de leilão e documentação histórica utilizam a designação Reserva Velhíssima Particular ou simplesmente Vinho Velho do Porto.
A designação “Reserva Velhíssima Particular” é particularmente relevante. Não corresponde necessariamente às categorias de classificação actualmente utilizadas para os Portos comerciais e deve ser entendida no contexto histórico da garrafa.
A documentação de leilões identifica explicitamente a referência como “MARTINHO – RESERVA VELHÍSSIMA (PARTICULAR) – 1881”, descrevendo o vinho como tinto aloirado, muito doce e envelhecido em cascos de carvalho.
A vindima de 1881 ocorreu num período em que a viticultura e a produção de Vinho do Porto no Douro eram ainda profundamente artesanais.
A pisa das uvas em lagares, a fermentação relativamente curta e a posterior fortificação constituíam elementos fundamentais do processo tradicional.
A composição varietal exacta do Martinho 1881 não se encontra documentada nas fontes actualmente disponíveis. Esta ausência é normal em vinhos do século XIX.
Nas vinhas durienses dessa época predominavam frequentemente parcelas com várias castas misturadas, em vez da separação varietal rigorosa actualmente praticada.
Consequentemente, a atribuição de uma composição específica de Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinto Cão ou outras castas não pode ser feita com segurança para esta garrafa.
O processo de elaboração de um Porto deste período começava com a extracção do mosto e dos compostos fenólicos das uvas, tradicionalmente através da pisa.
A fermentação era interrompida pela adição de aguardente vínica, conservando uma quantidade significativa dos açúcares naturais e elevando o grau alcoólico do vinho.
A combinação entre açúcar residual, álcool e acidez criava a estrutura necessária para uma longevidade excepcional.
Num vinho destinado a envelhecimento prolongado, esta estrutura inicial era fundamental para suportar décadas de transformação sem perder completamente a sua identidade.
A documentação contemporânea de exemplares da mesma referência confirma que o Martinho 1881 foi envelhecido em cascos de carvalho.
Este elemento permite compreender melhor o estilo actual do vinho.
O envelhecimento prolongado em madeira promove uma evolução oxidativa lenta, durante a qual a fruta primária vai sendo progressivamente substituída por aromas de frutos secos, caramelo, melaço, chocolate, especiarias, madeira antiga e outros compostos associados à maturação prolongada.
A idade extraordinária da referência — cerca de 145 anos desde a vindima — significa que o vinho deixou há muito de ser avaliado pelas características varietais que apresentaria na juventude.
A identidade actual resulta sobretudo da combinação entre a matéria-prima original, a fortificação e o longo processo de envelhecimento e conservação.
Existe ainda uma prova histórica particularmente importante realizada por Michael Broadbent em meados da década de 1980.
O especialista registou o vinho como apresentando um “fabulous racy flavour”, descrição que evidencia uma notável vitalidade numa garrafa que já tinha aproximadamente um século de idade.
Essa referência histórica constitui um indicador relevante da capacidade de preservação do vinho, embora não permita determinar automaticamente o estado actual de qualquer garrafa individual.
ENVELHECIMENTO
O estágio constitui o elemento central da identidade do Martinho Reserva Velhíssima Particular 1881.
A documentação disponível indica expressamente que o vinho foi envelhecido em cascos de carvalho. Num Porto desta natureza, o contacto prolongado com a madeira permite uma evolução oxidativa lenta.
O oxigénio penetra gradualmente através da madeira e participa na transformação dos compostos aromáticos, enquanto a evaporação natural provoca concentração progressiva do vinho.
Ao longo de muitas décadas, a fruta fresca tende a desaparecer, sendo substituída por fruta seca e cristalizada.
Figo, tâmara, passa e sultana tornam-se progressivamente mais evidentes, acompanhados por frutos secos como noz, amêndoa e avelã.
Simultaneamente, desenvolvem-se aromas de caramelo, melaço, açúcar queimado, café, chocolate e especiarias.
Em vinhos extremamente antigos podem ainda surgir características de rancio, madeira antiga, tabaco, couro e elementos balsâmicos.
A duração exacta do estágio em madeira anterior ao engarrafamento do Martinho 1881 não se encontra documentada de forma suficientemente precisa nas fontes consultadas.
Por esse motivo, não é possível determinar se a garrafa actualmente existente corresponde a um vinho que passou toda a sua evolução em casco ou se parte significativa da maturação ocorreu posteriormente em garrafa.
Esta distinção é importante. Um vinho de perfil predominantemente oxidativo, desenvolvido em casco, apresenta normalmente maior expressão de frutos secos, caramelo, especiarias e rancio.
Um vinho que tenha passado uma parte significativa da sua evolução em garrafa preserva normalmente uma arquitectura aromática diferente.
As fontes comerciais actuais também alertam para o facto de o ano de engarrafamento poder não corresponder à imagem apresentada e de as garrafas antigas poderem apresentar níveis de enchimento, depósitos e condições de rolha muito diferentes.
Exemplares de leilão demonstram precisamente essa variabilidade. Existem garrafas com nível próximo do gargalo, enquanto outras apresentam níveis significativamente mais baixos.
Num lote de oito garrafas vendido pela Christie’s, foram registados níveis desde into-neck até mid/low-shoulder. Esta diferença tem enorme relevância na avaliação de um vinho de 1881.
A condição da garrafa pode determinar a qualidade da experiência de forma tão significativa como a própria origem do vinho.
A presença de depósito também é normal em exemplares desta idade. Um lote da Artbid foi descrito como estando em bom estado, mas apresentando algum depósito.
O depósito não constitui, por si só, um defeito. Resulta da evolução natural dos componentes do vinho ao longo de muitas décadas. A sua presença exige apenas cuidado no transporte, abertura e serviço.
NOTAS DE PROVA
O Martinho 1881 apresenta, num exemplar bem conservado, uma tonalidade profundamente evoluída, situada entre o tawny escuro, o mogno, o castanho-avermelhado e o âmbar, podendo revelar no bordo reflexos alaranjados, acobreados ou ligeiramente esverdeados, características compatíveis com um vinho fortificado submetido a mais de um século de evolução.
No nariz, evidencia uma extraordinária complexidade terciária, marcada por figo seco, tâmara, passa e sultana, acompanhados por noz, avelã torrada e amêndoa.
A fruta surge completamente transformada pelo tempo, assumindo características secas, concentradas e caramelizadas.
Progressivamente aparecem aromas de caramelo escuro, melaço, açúcar queimado e toffee, seguidos por notas de casca de laranja cristalizada, marmelada e outros citrinos secos.
A evolução aromática acrescenta ainda chocolate negro, café torrado, tabaco, chá preto, madeira antiga, couro fino e especiarias doces.
A eventual componente de rancio poderá manifestar-se através de aromas de noz antiga, casca de citrinos seca, ervas aromáticas e nuances balsâmicas.
Na boca, apresenta uma textura sedosa e profundamente integrada, com doçura equilibrada por uma acidez que assume particular importância na preservação da frescura.
Os sabores de figo seco, tâmara, caramelo, noz e avelã dominam a entrada, evoluindo para chocolate negro, café, especiarias e casca de laranja cristalizada no centro de boca.
A enorme idade contribui para uma textura polida, sem arestas tânicas perceptíveis, enquanto a acidez proporciona tensão e impede que a concentração e a doçura resultem num perfil excessivamente pesado.
A prova histórica realizada por Michael Broadbent na década de 1980, quando o vinho tinha aproximadamente um século de idade, registou uma expressão particularmente viva e energética, constituindo um indicador relevante da capacidade de preservação desta referência.
O final é longo, persistente e complexo, deixando uma sucessão de notas de frutos secos, caramelo, chocolate, figo, casca de laranja, especiarias e madeira antiga.
A expressão final de cada garrafa poderá, contudo, variar significativamente em função do nível de enchimento, estado da rolha, condições de armazenamento e eventual exposição ao oxigénio ao longo das décadas.
SUGESTÕES
Deve ser servido a uma temperatura de 10ºC – 14ºC. O Martinho Reserva Velhíssima Particular 1881 apresenta estrutura e complexidade suficientes para ser consumido isoladamente, como vinho de contemplação.
Entre as harmonizações mais adequadas encontram-se frutos secos, especialmente noz, avelã e amêndoa torrada, cuja natureza aromática estabelece uma ligação directa com os componentes terciários do vinho.
Figos secos, tâmaras, passas e laranja cristalizada constituem igualmente acompanhamentos naturais, uma vez que reproduzem alguns dos aromas desenvolvidos pelo vinho durante a longa evolução.
As sobremesas à base de chocolate negro, caramelo, noz ou avelã apresentam grande compatibilidade. O chocolate deve apresentar uma doçura moderada, evitando que o açúcar da sobremesa domine a acidez do Porto.
Uma tarte de noz, um bolo de frutos secos pouco doce, praliné de avelã ou uma sobremesa de chocolate negro são combinações particularmente coerentes com o perfil aromático esperado.
Nos queijos, os queijos azuis constituem uma opção clássica. Stilton, Roquefort e Gorgonzola apresentam intensidade, salinidade e gordura suficientes para criar contraste com a doçura e a concentração do vinho.
Também são adequados queijos de ovelha muito curados, cuja intensidade permite acompanhar a complexidade de um Porto com mais de um século.
O foie gras pode igualmente funcionar, especialmente quando acompanhado por elementos cítricos ou ligeiramente doces.
A gordura do fígado estabelece contraste com a acidez do vinho, enquanto os aromas caramelizados encontram correspondência na evolução oxidativa do Porto.
A temperatura de serviço indicada nas fontes consultadas varia, em parte devido às diferentes classificações comerciais da referência.
Para um Porto histórico desta natureza, uma temperatura moderada permite preservar simultaneamente a expressão aromática e a frescura.
A garrafa deve ser aberta cuidadosamente devido à possível fragilidade da rolha. A existência de depósito é expectável em vinhos desta idade.
A decantação, quando necessária, deve ter como principal objectivo separar o depósito, e não promover uma oxigenação prolongada.
È recomendado uma abertura cuidadosa e uma eventual decantação paciente para vinhos antigos desta natureza.
A evolução no copo deve ser acompanhada progressivamente.
Um vinho com mais de 140 anos pode apresentar uma expressão inicial fechada que se modifica depois de alguns minutos, mas uma exposição excessiva ao oxigénio também pode acelerar a perda dos aromas mais delicados.
ENOLOGIA
N/A
TEOR ALCOÓLICO
20.0%





