CASTAS
Sercial
VINIFICAÇÃO
A vinificação deste Blandy’s Sercial Solera 1835 seguia exclusivamente métodos tradicionais. As uvas eram colhidas manualmente, transportadas em cestos de vime e prensadas em prensas rudimentares de madeira. A fermentação decorria espontaneamente, com leveduras indígenas, em tonéis de madeira sem controlo de temperatura.
Devido ao carácter naturalmente seco da casta, a fermentação era mais prolongada e só posteriormente interrompida pela adição de aguardente vínica neutra, resultando num vinho de extraordinária secura, acidez cortante e enorme rusticidade inicial. Este estilo puro, directo e severo serviu como alicerce ideal para o processo solera que se seguiu.
Cada detalhe da vinificação era ditado pela experiência das famílias produtoras, transmitida oralmente de geração em geração, num período em que a tecnologia enológica moderna ainda não existia.
ENVELHECIMENTO
O termo Solera 1835 indica que o núcleo da solera foi iniciado nesse ano, com o vinho sendo sucessivamente refrescado ao longo do tempo com adições minuciosas de lotes mais jovens, mantendo sempre parte significativa do vinho original.
O envelhecimento decorreu através do processo de canteiro, utilizando os armazéns quentes e arejados de Funchal, onde o vinho repousou por muitas décadas em cascos antigos de carvalho europeu.
A lenta oxidação, a evaporação contínua e a concentração gradual deram ao vinho uma profundidade aromática e uma estrutura textural absolutamente incomuns.
Ao longo de mais de 150 anos, o solera sofreu sucessivas trasfegas, pequenas incorporações de vinho novo e movimentações entre cascos com diferentes níveis de oxidação, permitindo-lhe atingir um equilíbrio notável entre austeridade, frescura, complexidade e intensidade.
O resultado é um Madeira de carácter épico, praticamente irrepetível, com camadas que apenas se formam ao longo de muitas gerações.
NOTAS DE PROVA
No copo, o Blandy’s Sercial Solera 1835 apresenta uma cor âmbar profunda, com reflexos dourados e esverdeados que apenas surgem nos Madeiras muito antigos e secos. A luminosidade é surpreendente, quase etérea, apesar da idade extrema.
Ao aproximar o nariz, a primeira impressão é de uma profundidade vertical impressionante: surgem notas de casca de laranja amarga, cidra cristalizada, noz verde, mel leve, madeira antiga encerada e um notável carácter iodado que evoca maresia, algas secas e vento atlântico.
No entanto, basta alguns segundos para que outras camadas se revelem, chá preto forte, folhas secas, fumo subtil de incenso, resinas, verniz natural, noz-moscada delicada e uma sugestão de maçã desidratada. Com maior oxigenação, o vinho expande-se e torna-se ainda mais complexo: aparecem notas de vinagrinho elegante, cânfora, casca de limão, caramelo claro, amêndoa torrada, pedra molhada e um intrigante toque de salsa-de-curar.
No fundo aromático, surgem nuances profundamente evoluídas, como tabaco seco de grande idade, móveis antigos de madeira nobre, grãos de café levemente tostados e um subtil traço de toffee salgado. Tudo isto é envolvido por uma acidez aromática que parece cortar o ar, denunciando a natureza indomável da casta.
Na boca, o vinho surpreende pela energia inesgotável. A entrada é seca, vibrante e cortante, com uma acidez elétrica e quase cristalina que desperta imediatamente o palato. O corpo, embora magro pela natureza da casta, é incrivelmente denso em sabor.
Notas austeras de citrinos secos, casca de lima, chá Darjeeling, amêndoa amarga e marmelo verde surgem com intensidade, acompanhadas por uma salinidade marítima que percorre toda a boca.
Depois, camadas mais profundas emergem: casca de árvore resinosa, especiarias brancas, pedra vulcânica quente, noz tostada, leve sensação de vinagrinho balsâmico e uma subtileza de caramelo seco que nunca chega a suavizar completamente a estrutura amarga e vibrante do Sercial.
A textura é viva, firme, quase tensa, mas ao mesmo tempo envolta numa elegância antiga e polida. À medida que o vinho evolui no palato, revela uma persistência monumental, com notas de citrinos secos, sal marinho, chá preto e amargor nobre que permanecem durante longos minutos após a prova.
O final é extremamente longo, fresco, salino, profundamente seco e com uma precisão quase cirúrgica, um final que parece suspender o tempo, ecoando com ecos minerais e marítimos. É um vinho de contemplação absoluta, um testemunho vivo de quase dois séculos de história líquida.
SUGESTÕES
Deve ser servido a uma temperatura de 16º C – 18º C. O Blandy’s Sercial Solera 1835 harmoniza de forma excepcional com frutos secos torrados, amêndoas salgadas, azeitonas verdes de salmoura, queijos duros intensos como o Parmigiano Reggiano muito velho ou o Manchego curado, bem como mariscos fumados ou pratos com forte componente cítrica.
Liga maravilhosamente com carpaccio de vieira, saladas de mar com vinagrete leve, ou mesmo pratos japoneses que integrem miso branco ou yuzu. Contudo, tal como todos os grandes Serciais, atinge o auge quando degustado sozinho, com tempo e silêncio, dada a sua complexidade monumental.
ENOLOGIA
N/A
TEOR ALCOÓLICO
19.0%






