Herdade do Mouchao Tonel Nº 3-4 2008
CASTAS
Alicante Bouschet
VINIFICAÇÃO
O Herdade do Mouchão Tonel Nº 3-4 2008 constitui uma das mais extraordinárias expressões da casta Alicante Bouschet alguma vez produzidas em Portugal.
Produzido apenas em anos considerados verdadeiramente excepcionais, este vinho representa o expoente máximo da filosofia da Herdade do Mouchão, uma propriedade histórica fundada pela família Reynolds no final do século XIX e reconhecida internacionalmente por preservar métodos tradicionais praticamente inalterados há mais de um século.
A colheita de 2008 beneficiou de um ciclo vegetativo muito equilibrado.
As condições climatéricas permitiram uma maturação completa da Alicante Bouschet, preservando simultaneamente elevados níveis de acidez natural e uma enorme concentração fenólica.
O resultado foi um vinho de grande profundidade, elegância e longevidade, considerado pela própria Herdade do Mouchão uma das melhores interpretações desta referência.
As uvas provêm exclusivamente da histórica Vinha dos Carapetos, considerada a melhor parcela de Alicante Bouschet da propriedade.
Foi precisamente nesta vinha que esta casta encontrou um dos seus terroirs mais emblemáticos em Portugal.
Os solos são de origem aluvial, muito bem drenados, pobres em matéria orgânica e obrigam as videiras a produzir naturalmente baixos rendimentos, originando bagos pequenos, extremamente concentrados e ricos em cor, taninos e compostos aromáticos.
A vindima é realizada exclusivamente à mão, selecionando apenas os cachos que apresentam um perfeito estado sanitário.
Uma das maiores particularidades do Mouchão reside no facto de os cachos serem vinificados inteiros, incluindo o engaço.
Esta opção obriga a uma precisão absoluta na escolha da data da vindima, uma vez que apenas engaços completamente lignificados permitem obter a elegância estrutural característica deste vinho.
Toda a fermentação decorre nos históricos lagares de pedra da herdade.
As uvas são pisadas manualmente durante quatro a seis dias, método que proporciona uma extração extremamente delicada da cor e dos taninos, preservando simultaneamente toda a pureza aromática da fruta.
Terminada a fermentação, o vinho é prensado nas centenárias prensas manuais de madeira, ainda hoje utilizadas diariamente na adega, constituindo um dos raríssimos exemplos de continuidade deste método tradicional em Portugal.
Desde a primeira prova, apenas o melhor vinho proveniente da Vinha dos Carapetos é destinado aos famosos Tonéis Nº 3 e Nº 4.
Caso a evolução não corresponda aos elevadíssimos padrões qualitativos da casa, o vinho nunca recebe esta designação, sendo incorporado no lote do Mouchão clássico.
Esta seleção extremamente rigorosa explica a reduzidíssima produção e o enorme prestígio internacional desta referência.
ENVELHECIMENTO
O estágio do Tonel Nº 3-4 constitui um dos processos de envelhecimento mais singulares da enologia portuguesa.
Após a fermentação, o vinho é colocado diretamente nos históricos Tonéis Nº 3 e Nº 4, dois recipientes de aproximadamente 5.000 litros, construídos com aduelas de carvalho e castanho portugueses e fundos em mogno e macacaúba brasileira.
Estes tonéis, utilizados há várias gerações, são considerados parte integrante da identidade do vinho. A grande capacidade destes recipientes permite uma micro-oxigenação extremamente lenta e homogénea.
Ao contrário das pequenas barricas, onde a madeira desempenha frequentemente um papel aromático dominante, estes tonéis têm como principal função favorecer uma evolução muito gradual da estrutura do vinho.
O contacto subtil com o oxigénio estabiliza naturalmente a cor, suaviza os taninos e promove o desenvolvimento de uma enorme complexidade aromática sem mascarar a identidade da Alicante Bouschet.
No caso específico da colheita 2008, o vinho permaneceu cerca de cinco anos nestes tonéis históricos antes do engarrafamento, período durante o qual desenvolveu uma integração notável entre fruta, estrutura e mineralidade.
Apenas após sucessivas provas pela equipa de enologia foi tomada a decisão de avançar para o engarrafamento.
Depois de engarrafado, o vinho permaneceu ainda entre dois e quatro anos em cave antes da sua comercialização, permitindo que todas as componentes se harmonizassem plenamente.
Este longo repouso faz parte integrante da filosofia do Mouchão e explica porque motivo o vinho chega ao mercado já com um elevado grau de integração, embora ainda muito longe do seu potencial máximo.
Mais de quinze anos após a vindima, o Tonel Nº 3-4 2008 encontra-se numa fase extraordinariamente interessante da sua evolução.
A fruta mantém enorme vitalidade, os taninos continuam firmes mas extremamente refinados e começam a surgir elegantes aromas terciários que acrescentam ainda maior profundidade ao conjunto.
Trata-se de um vinho que poderá evoluir favoravelmente durante várias décadas.
NOTAS DE PROVA
Visualmente, o Herdade do Mouchao Tonel No. 3-4 2008 apresenta uma cor granada muito profunda, praticamente opaca no centro, enriquecida por reflexos rubi intensos que revelam uma evolução lenta e uma extraordinária concentração cromática.
No nariz impressiona imediatamente pela enorme profundidade aromática.
As primeiras notas recordam amora silvestre, ameixa preta, cereja negra e mirtilo maduro, acompanhadas por delicados apontamentos florais que acrescentam elegância ao conjunto.
À medida que o vinho ganha contacto com o oxigénio surgem sucessivas camadas aromáticas de enorme sofisticação.
Desenvolvem-se notas de menta, eucalipto, especiarias doces, grafite, tinta-da-china, lápis de carvão e azeitona preta, formando uma assinatura aromática absolutamente característica dos grandes Tonel Nº 3-4.
O longo estágio nos tonéis antigos acrescenta ainda aromas de chocolate negro, café torrado, alcaçuz, cedro e cacau puro, perfeitamente integrados na fruta.
Com maior oxigenação surgem notas de couro fino, tabaco envelhecido, trufa negra, bosque húmido e delicadas resinas aromáticas.
Na boca apresenta uma entrada ampla, poderosa e extremamente refinada.
A fruta negra madura envolve imediatamente o palato, sendo sustentada por uma acidez vibrante que percorre toda a prova e impede qualquer sensação de excesso.
O meio de boca revela taninos monumentais mas absolutamente polidos, conferindo uma textura simultaneamente firme, cremosa e elegante.
Os sabores sucedem-se entre fruta preta madura, chocolate amargo, grafite, café, especiarias orientais, ervas balsâmicas e delicadas notas minerais.
Apesar da enorme concentração, o vinho transmite sempre uma impressionante sensação de equilíbrio. A potência nunca compromete a elegância, característica que distingue esta referência entre os grandes vinhos portugueses.
O final é verdadeiramente memorável.
Permanece durante vários minutos com notas de frutos negros, alcaçuz, chocolate negro, grafite, menta, especiarias e uma extraordinária frescura mineral, terminando com uma persistência praticamente interminável.
As notas de prova publicadas aquando do lançamento destacam precisamente esta combinação de fruta negra madura, especiarias, chocolate, mineralidade, acidez vibrante e enorme elegância.
SUGESTÕES
Deve ser servido a uma temperatura de 14ºC – 16ºC. O Herdade do Mouchão Tonel Nº 3-4 2008 exige uma gastronomia de elevado nível, capaz de acompanhar a sua enorme profundidade e estrutura.
Harmoniza de forma excepcional com costeletão maturado, lombo de novilho, wagyu grelhado, vazia maturada e outras carnes vermelhas de grande qualidade.
A riqueza proteica destes pratos integra perfeitamente os taninos do vinho, permitindo revelar toda a sua elegância.
É igualmente extraordinário com caça de pelo e de pena, nomeadamente veado, javali, lebre, pombo bravo ou perdiz, sobretudo quando preparados com cogumelos silvestres, trufa negra, ervas aromáticas ou reduções vínicas.
Na cozinha tradicional portuguesa acompanha de forma magnífica cabrito assado em forno de lenha, borrego lentamente assado, arroz de lebre ou pratos de confeção lenta onde predominam sabores intensos e texturas ricas.
Entre os queijos, harmoniza particularmente bem com Serra da Estrela curado, queijo de Nisa, Manchego velho, Comté envelhecido e Parmigiano Reggiano de longa cura.
Tratando-se de um vinho de enorme potencial de guarda, recomenda-se colocar a garrafa na posição vertical durante pelo menos vinte e quatro horas antes da abertura.
Uma decantação entre duas e quatro horas permitirá eliminar os depósitos naturais e favorecer a plena expressão aromática.
A própria Herdade do Mouchão recomenda abrir ou decantar o vinho entre doze e vinte e quatro horas antes do consumo nas colheitas mais jovens, dada a sua extraordinária concentração.
ENOLOGIA
Paulo Laureano
TEOR ALCOÓLICO
14.0%




