CASTAS
Alicante Bouschet, Aragonez, Trincadeira
VINIFICAÇÃO
A vinificação deste Cartuxa Colheita Tinto 1989 seguiu o estilo clássico da Cartuxa, com vindima manual e rigorosa seleção de uvas à entrada da adega.
Após desengace, as uvas foram conduzidas para lagares ou depósitos tradicionais onde ocorreu a fermentação alcoólica, provavelmente com recurso a pisa ou remontagens manuais, respeitando a integridade do fruto e promovendo a extração lenta e controlada de taninos e cor.
A fermentação decorreu a temperaturas moderadas, permitindo preservar frescura e pureza aromática, essenciais para um vinho com vocação de guarda tão prolongada. A fermentação maloláctica foi realizada de forma natural, arredondando acidez e conferindo maior harmonia ao conjunto.
Todo o processo refletiu uma filosofia de intervenção mínima, permitindo ao vinho expressar a essência das castas e do terroir alentejano.
ENVELHECIMENTO
O estágio do Cartuxa Colheita Tinto 1989 realizou-se em barricas de carvalho, possivelmente francês e português, durante um período prolongado que podia variar entre 12 e 18 meses, dependendo do perfil desejado pela equipa enológica da época.
Estas barricas, muitas vezes usadas, não tinham como objetivo conferir sabores intensos a madeira nova, mas sim oxigenar suavemente o vinho, amaciar os taninos e integrar os componentes aromáticos de forma progressiva.
Após o estágio em madeira, o vinho repousou longos meses em garrafa antes de ser lançado, entrando depois num período de lenta evolução onde ganhou profundidade, complexidade e uma elegância que hoje se revela com uma maturidade absolutamente extraordinária.
A longevidade demonstrada é prova de que os grandes tintos do Alentejo, quando bem construídos, podem atravessar décadas com uma dignidade surpreendente.
NOTAS DE PROVA
Abrir uma garrafa de Cartuxa Colheita Tinto 1989 é como testemunhar a transformação do tempo num vinho que se mantém incrivelmente vivo. A cor, embora marcada pela idade, apresenta um granada profundo com tons acastanhados na orla, revelando transparência e brilho ainda cativantes.
No nariz, o vinho exibe uma complexidade notável, evoluindo continuamente no copo. Primeiro surgem aromas de fruta vermelha seca, como cereja e ameixa desidratada, acompanhados por notas profundas de tabaco envelhecido, caixa de charutos e terra húmida.
Com o tempo, abre-se em camadas de especiarias quentes, sobretudo pimenta preta, noz-moscada e um subtil cravinho que confere ao perfil aromático um toque clássico e aristocrático. A madeira antiga está completamente integrada, oferecendo apenas ecos suaves de cedro, baunilha leve e resina, elementos que em nada sobrepõem a fruta mas que enriquecem o conjunto.
Notas de couro macio, folhas secas, trufas, cogumelos silvestres e chá preto reforçam a profundidade terrena e terciária do vinho, enquanto um delicado toque balsâmico, quase eucalipto seco, acrescenta elegância e frescura inesperada para um tinto com mais de 35 anos. Na boca, o vinho impressiona pela suavidade e pela harmonia.
A entrada é redonda, revelando imediatamente taninos finíssimos, completamente polidos pelo tempo, mas ainda presentes o suficiente para conferir estrutura. A acidez está surpreendentemente viva, proporcionando uma sensação de equilíbrio e leveza que contrasta com a imagem tradicional de calor associada ao Alentejo.
Os sabores são longos e amplos: frutos vermelhos secos, ameixa passa, compota leve de framboesa, especiarias elegantes, chocolate negro muito fino e notas subtis de ervas mediterrânicas, como alecrim e tomilho seco. O meio de boca é sedoso, com uma profundidade que cresce em intensidade sem nunca se tornar pesada.
O final é extenso, persistente, rico em nuances de fruto seco, cacau, terra quente, madeira velha e uma acidez final que refresca e prolonga as sensações durante longos segundos. É um vinho que demonstra a beleza da maturidade e a capacidade rara de um tinto alentejano envelhecer com tanta dignidade e expressão.
SUGESTÕES
Deve ser servido a uma temperatura de 16º C – 18º C. Devido à sua elegância e complexidade, este Cartuxa de 1989 acompanha na perfeição pratos igualmente profundos e ricos. Ensopados tradicionais alentejanos, borrego assado lentamente, perdiz estufada, javali braseado ou migas com carne de porco são harmonizações naturais.
Queijos curados, como Serpa velho ou queijo da Ilha de São Jorge com várias décadas, casam-se magníficamente com a estrutura envelhecida do vinho. Também combina bem com pratos de cogumelos selvagens, risotos de trufa negra ou carnes maturadas que enaltecem a componente terrosa e terciária exibida pelo vinho.
ENOLOGIA
Pedro Baptista, Francisco Colaço do Rosário
TEOR ALCOÓLICO
13.0%




